Ensino superior desafia Lula e Flávio Bolsonaro às vésperas da eleição
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Ensino superior desafia Lula e Flávio Bolsonaro às vésperas da eleição

Rankings internacionais revelam perda de posições das universidades brasileiras, enquanto restrições orçamentárias, financiamento estudantil e expansão das matrículas entram na agenda do próximo governo.

A eleição presidencial deste domingo, 25 de outubro, entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), ocorre em um momento de desafios para o ensino superior brasileiro. Embora o país mantenha uma presença expressiva entre as universidades latino-americanas, indicadores internacionais mostram perda de posições no cenário mundial, enquanto instituições públicas e privadas enfrentam questões relacionadas a financiamento, internacionalização, inovação e acesso à graduação.

O próximo presidente terá de administrar demandas que vão além da abertura de novas vagas. Entre elas estão a sustentabilidade financeira das universidades, a permanência estudantil, o desenvolvimento científico, a formação de profissionais e a aproximação entre instituições acadêmicas e o setor produtivo.

Além da Presidência da República, o segundo turno definirá os governadores de cinco estados e do Distrito Federal, que também terão responsabilidades sobre universidades estaduais, pesquisa científica e políticas regionais de inovação.

Lula propõe expansão das universidades e permanência estudantil

O presidente Lula, candidato à reeleição, apresenta entre suas propostas a ampliação e a interiorização da rede federal de ensino superior, o fortalecimento da assistência estudantil e a expansão da pós-graduação.

O programa também contempla a continuidade de projetos de infraestrutura universitária, o fortalecimento dos hospitais universitários e investimentos na formação de pesquisadores.

Durante a campanha, Lula anunciou ainda a intenção de ampliar o Pé-de-Meia para universitários, incluindo estudantes de instituições públicas e beneficiários do Programa Universidade para Todos (Prouni).

A proposta prevê incentivo financeiro à permanência acadêmica, mas sua implementação dependerá de regulamentação e disponibilidade orçamentária.

Entretanto, as propostas de expansão convivem com questionamentos sobre a execução financeira do Ministério da Educação durante o atual governo.

Governo Lula promoveu restrições orçamentárias na educação em 2026

A política de financiamento das universidades federais voltou ao debate após medidas de contenção de despesas adotadas pelo governo federal ao longo de 2026.

Em maio, a programação orçamentária do Executivo estabeleceu novos bloqueios de despesas discricionárias e restrições à execução de recursos. As medidas atingiram o Ministério da Educação e tiveram reflexos sobre o planejamento financeiro das instituições federais.

Em setembro, uma nova atualização reduziu o volume geral de recursos retidos no Executivo. Ainda assim, o MEC permaneceu com aproximadamente R$ 1,325 bilhão em despesas discricionárias sob contenção.

É importante distinguir os valores: o montante corresponde ao Ministério da Educação como um todo e não representa exclusivamente verbas destinadas às universidades federais.

Bloqueios, contingenciamentos e limitações de empenho são instrumentos de execução orçamentária previstos na legislação fiscal. Seus efeitos dependem da duração das restrições, da distribuição entre programas e da liberação posterior dos recursos.

Para as universidades, a previsibilidade financeira é especialmente relevante porque contratos de manutenção, serviços, laboratórios, bolsas e projetos científicos exigem planejamento contínuo.

A questão que permanece para o próximo mandato é como conciliar os compromissos de expansão universitária com as metas fiscais e a estabilidade do financiamento público.

Flávio Bolsonaro propõe reorganização da gestão e do financiamento

Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda voltada à reorganização administrativa do ensino superior federal, à integração com ciência e tecnologia e à revisão dos mecanismos de financiamento estudantil.

Entre as medidas apresentadas estão a transferência da governança das instituições federais de ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e a aproximação das universidades com empresas e centros de pesquisa.

O programa também propõe reorganizar o financiamento estudantil por meio de um modelo de empréstimo contingente à renda.

Nesse sistema, o pagamento do financiamento seria vinculado à renda profissional do estudante após sua inserção no mercado de trabalho, com parcelas proporcionais aos rendimentos.

A proposta dependeria de regulamentação específica para estabelecer critérios de acesso, condições financeiras, mecanismos de cobrança e fontes de recursos.

Na pesquisa científica, a candidatura defende maior integração entre universidades, Capes, CNPq e políticas de desenvolvimento tecnológico e produtivo.

Ranking QS revela perda de posições das universidades brasileiras

O QS World University Rankings 2027, divulgado em junho de 2026, apresenta um cenário de perda de posições das universidades brasileiras na classificação mundial.

A Universidade de São Paulo (USP), instituição brasileira mais bem posicionada, aparece na 133ª colocação, depois de ocupar o 108º lugar na edição anterior.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) passou da 233ª para a 277ª posição, enquanto a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) recuou da 317ª para a 367ª.

Entre as instituições brasileiras classificadas anteriormente, 14 perderam posições, oito permaneceram estáveis e nenhuma avançou.

O resultado revela dificuldades de posicionamento internacional, embora mudanças de classificação também possam refletir alterações metodológicas e o desempenho de universidades concorrentes.

As universidades brasileiras no ranking mundial

Entre as instituições mais bem classificadas na edição 2027 estão:

  1. Universidade de São Paulo (USP) — 133ª posição.
  2. Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — 277ª.
  3. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) — 367ª.
  4. Universidade Estadual Paulista (Unesp) — 513ª.
  5. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — 600ª.
  6. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) — 620ª.
  7. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — faixa 741–750.
  8. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) — faixa 801–850.
  9. Universidade de Brasília (UnB) — faixa 851–900.
  10. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) — faixa 901–950.

O Brasil possui 22 universidades classificadas no ranking mundial de 2027.

No levantamento regional QS América Latina e Caribe 2027, divulgado em outubro, o desempenho brasileiro apresenta outro aspecto: o país possui 137 instituições classificadas, incluindo quatro entre as dez primeiras da região.

USP, Unicamp, UFRJ e Unesp ocupam, respectivamente, a segunda, terceira, quinta e sexta posições latino-americanas.

Os dois levantamentos utilizam metodologias distintas e não devem ser confundidos.

Internacionalização, pesquisa e mercado de trabalho são desafios

A análise dos rankings internacionais evidencia questões estruturais que ultrapassam o desempenho isolado das instituições.

Uma delas é a internacionalização. A atração de estudantes e pesquisadores estrangeiros, a oferta de disciplinas em outros idiomas e a participação em redes internacionais de pesquisa influenciam a presença das universidades brasileiras no cenário mundial.

Outro desafio está na continuidade do financiamento científico. Projetos de pesquisa, laboratórios e programas de pós-graduação dependem de recursos estáveis, frequentemente distribuídos por agências públicas de fomento.

A aproximação entre universidades e empresas também integra o debate. A transferência de tecnologia, a proteção da propriedade intelectual e a transformação do conhecimento acadêmico em produtos e processos produtivos exigem articulação entre instituições, setor empresarial e governo.

A produção científica brasileira possui presença internacional, mas o desempenho em indicadores de impacto varia entre instituições e áreas do conhecimento.

Por isso, a ampliação da competitividade acadêmica envolve não apenas o volume de publicações, mas também sua relevância, a colaboração internacional e a capacidade de gerar resultados científicos, sociais e econômicos.

João Vianney questiona como retomar o crescimento das matrículas

os desafios do ensino superior para o próximo presidente
FOTO Mídias Sociais Reprodução NotíciasdoEnsinoSuperior

O pesquisador e consultor educacional João Vianney, da Hoper Educação, também tem chamado a atenção para a estagnação do ingresso de novos estudantes na graduação brasileira. Em publicações no LinkedIn, Vianney relata debates realizados com a professora Elisabete Cerutti, da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), sobre a necessidade de construir um novo ciclo de expansão do ensino superior.

Segundo sua análise, os modelos que impulsionaram o crescimento nas últimas décadas — expansão das instituições públicas e privadas, Prouni, Fies e educação a distância — já não apresentam o mesmo ritmo de crescimento.

O pesquisador aponta estabilidade no número de ingressantes em cursos presenciais desde 2022 e sinais de retração nas novas matrículas em 2026, conforme levantamentos setoriais.

Vianney dirige três questionamentos ao setor educacional:

  • Quais medidas o Ministério da Educação pretende adotar para que o ensino superior volte a crescer?
  • Qual é o posicionamento do Conselho Nacional de Educação diante da estagnação?
  • Que propostas as entidades representativas apresentarão para um novo ciclo de expansão?

As perguntas foram publicadas em suas redes profissionais. Não foi possível confirmar que integrem uma carta aberta assinada por três especialistas e encaminhada formalmente aos presidenciáveis.

O debate levantado por Vianney também envolve a necessidade de adequar cursos, horários e modalidades de ensino às condições de estudantes que trabalham e precisam conciliar formação acadêmica com atividades profissionais.

Entidades apresentam cartas com propostas aos presidenciáveis

As demandas do ensino superior também foram formalizadas por entidades representativas.

A Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP) encaminhou aos candidatos à Presidência uma carta aberta com cinco eixos para o período de 2027 a 2030.

O documento aborda participação institucional nas decisões, segurança regulatória, modernização do Fies e do Prouni, educação a distância e fortalecimento do ensino técnico.

O Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) também apresentou uma agenda voltada ao planejamento de longo prazo, autonomia universitária, financiamento, pesquisa, inovação, formação de professores e cooperação internacional.

As manifestações evidenciam demandas que abrangem instituições públicas, privadas e comunitárias, com diferentes modelos de financiamento e responsabilidades acadêmicas.

Seis governos estaduais também serão definidos

O segundo turno deste domingo definirá ainda os governadores de cinco estados e do Distrito Federal.

No Acre, a disputa será entre Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos). No Amazonas, concorrem Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL).

No Distrito Federal, os candidatos são Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT). No Espírito Santo, disputam Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB).

No Rio Grande do Norte, a eleição será entre Allyson Bezerra (União Brasil) e Cadu Xavier (PT). Em Tocantins, concorrem Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB).

Os governos estaduais possuem atribuições relevantes para a educação superior, especialmente na manutenção de universidades estaduais, no financiamento de fundações de amparo à pesquisa e na formulação de políticas de desenvolvimento científico e tecnológico.

Próximo governo terá de transformar propostas em políticas públicas

A eleição presidencial definirá a orientação das políticas federais de ensino superior entre 2027 e 2030.

A expansão do acesso, a permanência dos estudantes, a estabilidade orçamentária, a qualidade acadêmica, a internacionalização e a integração com o setor produtivo estarão entre os temas que exigirão decisões do próximo governo.

Os indicadores internacionais, as manifestações de especialistas e as cartas das entidades representativas apresentam demandas que poderão orientar o debate público após as eleições.

A implementação dos compromissos dependerá de recursos, decisões administrativas, regulamentação e, quando necessário, aprovação do Congresso Nacional.

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