Brasil forma professores, mas jovens se afastam das salas de aula
Licenciaturas presenciais perderam alunos enquanto formação migrou para o ensino a distância; baixos salários, violência, condições de trabalho e perda de prestígio ajudam a explicar dificuldade para atrair uma nova geração de docentes
O Brasil está diante de um paradoxo na formação de professores. O número total de estudantes matriculados em licenciaturas aumentou na última década, mas os cursos presenciais perderam espaço e a formação docente tornou-se fortemente dependente da educação a distância. Por trás dos números aparece um problema mais profundo: a dificuldade de convencer os jovens a escolher a sala de aula como profissão.
Dados do Censo da Educação Superior mostram que o país tinha 1,46 milhão de estudantes matriculados em licenciaturas em 2014. Dez anos depois, em 2024, eram 1,71 milhão. Portanto, seria incorreto afirmar que houve redução geral das matrículas.
A transformação aparece quando os números são separados por modalidade.
Em 2024, 69% de todos os estudantes de licenciatura estavam matriculados em cursos a distância. Entre aqueles que ingressaram naquele ano, a concentração era ainda maior: 81% dos novos alunos chegaram às licenciaturas pelo EAD.
Nas instituições privadas, a mudança é ainda mais radical. Dos 649 mil ingressantes em licenciaturas em 2024, apenas 6,2% entraram em cursos presenciais. Os outros 93,8% ingressaram pela educação a distância.
O desaparecimento do jovem das licenciaturas presenciais
Um levantamento do Instituto Semesp, elaborado a partir dos dados do Inep, ajuda a compreender o fenômeno. Entre 2012 e 2022, as matrículas nas licenciaturas presenciais caíram 34,8% no Brasil. Na rede privada, a retração chegou a 68,8%.
O próprio estudo relaciona esse movimento à perda de interesse dos mais jovens pela docência. Há uma diferença importante no perfil etário: no EAD, 63,8% dos estudantes das licenciaturas tinham 30 anos ou mais.
Isso significa que a formação de professores não desapareceu, mas mudou profundamente de perfil. A porta tradicional pela qual um jovem saía do ensino médio, ingressava numa universidade presencial e começava a construir uma carreira como professor ficou consideravelmente mais estreita.
A tendência já vinha sendo percebida anteriormente. Estudo do Semesp mostrou que, entre 2010 e 2020, o número de ingressantes nas licenciaturas presenciais caiu 37,6%. Em 2020, 73,2% dos novos estudantes de licenciatura já estavam no ensino a distância.
Por que ser professor deixou de atrair?
A resposta não está apenas dentro das universidades.
Salário, condições de trabalho, violência, indisciplina, jornadas extensas e perda de reconhecimento social aparecem repetidamente nas pesquisas sobre a profissão.
Uma revisão sistemática publicada pela Revista Brasileira de Educação analisou estudos sobre professores que deixam a educação básica. Os pesquisadores encontraram entre as principais razões para o abandono da carreira “baixa remuneração; as más condições de trabalho; a desvalorização do professor; a indisciplina e a violência”.
O problema começa, portanto, antes mesmo da decisão de abandonar a profissão. Um estudante que observa professores trabalhando sob essas condições pode simplesmente decidir não seguir o mesmo caminho.
Pesquisa do Instituto Semesp realizada com 444 professores da educação básica ajuda a dimensionar essa percepção. 79,4% disseram já ter pensado em desistir da docência. Outros 67,6% declararam sentir insegurança, desânimo ou frustração em relação ao futuro profissional.
A violência também aparece de maneira expressiva: 52,3% dos professores pesquisados afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência no exercício da profissão.
“Violência contra os professores, baixos salários e longas jornadas”
A percepção não está restrita às estatísticas.
Em artigo publicado pela Revista Balbúrdia, da Universidade de São Paulo (USP), o professor e pesquisador Marcos Vogel, ao discutir a desvalorização da profissão docente a partir de pesquisa com licenciandos, registra três problemas encontrados por futuros professores ao entrarem em contato com escolas de educação básica:
“a violência contra os professores, os baixos salários e as longas jornadas de trabalho.”
O estudo associa esses fatores à desvalorização psicológica, salarial e social da profissão.
Há ainda um efeito acumulativo. Não se trata apenas de quanto o professor recebe, mas das condições em que precisa desempenhar uma atividade que exige formação superior, planejamento, atualização permanente e responsabilidade sobre dezenas ou centenas de estudantes.
Uma revisão científica sobre o abandono da carreira resume essa relação ao observar que remuneração, ambiente de trabalho e reconhecimento social interferem na atratividade profissional.
Mais da metade já sofreu violência
Uma pesquisa anterior do Instituto Península, realizada com 1.812 professores de escolas públicas e privadas, encontrou resultado semelhante.
Para 30% dos entrevistados, problemas relacionados à desvalorização, perda de autoridade, violência e falta de respeito em sala estavam entre as maiores causas de insatisfação. A remuneração apareceu logo depois, citada por 26%. Falta de estrutura das escolas, desinteresse dos estudantes e das famílias e carga horária excessiva completavam o quadro.
A questão deixa, assim, de ser exclusivamente salarial. O salário importa, mas divide espaço com segurança, ambiente profissional, condições materiais, reconhecimento e perspectiva de carreira.
Quem substituirá os professores atuais?
A redução do interesse dos jovens torna-se mais preocupante quando combinada com o envelhecimento dos profissionais que já estão nas escolas.
O Instituto Semesp vem alertando para a possibilidade de o Brasil enfrentar um déficit de docentes nas próximas décadas. Estudo divulgado originalmente em 2022 estimou que, mantidas determinadas tendências demográficas e profissionais utilizadas naquela projeção, poderia haver déficit de até 235 mil professores na educação básica em 2040.
Em 2026, o instituto voltou ao tema e apontou novamente baixa valorização, remuneração insuficiente, sobrecarga, violência no ambiente escolar, falta de políticas estruturais e desinteresse dos jovens entre os fatores associados ao problema.
A projeção não significa que necessariamente faltarão 235 mil professores — trata-se de um cenário construído a partir de hipóteses sobre demanda e evolução do número de docentes. Mas funciona como alerta para uma questão que os números atuais já permitem observar: formar professores é diferente de conseguir fazer com que uma nova geração queira ser professora.
A licenciatura cresceu, mas mudou de perfil
Os dados ajudam também a evitar uma conclusão aparentemente simples, mas equivocada.
O Brasil não deixou de ter estudantes fazendo licenciatura. Em números absolutos, há hoje mais matrículas do que dez anos atrás. O que ocorreu foi uma migração extraordinária para o EAD e uma redução da presença das licenciaturas no ensino presencial.
Em 2024, dos 1,71 milhão de estudantes de licenciatura, aproximadamente sete em cada dez estavam no EAD. Entre os novos alunos, eram oito em cada dez.
O desafio brasileiro, portanto, talvez seja ainda maior do que recuperar matrículas.
É preciso recuperar a atratividade da profissão.
Porque universidades podem abrir vagas, governos podem criar programas de formação e novas tecnologias podem ampliar enormemente o acesso aos cursos. Mas nenhuma dessas medidas, isoladamente, responde à pergunta que começa a preocupar quem olha para as escolas das próximas décadas:
Quem vai querer estar diante da turma?
Fontes para auditoria: os dados oficiais podem ser conferidos no Censo da Educação Superior do Inep e nos resultados do Censo da Educação Superior 2024. A análise das licenciaturas está no Mapa do Ensino Superior do Instituto Semesp, e a citação acadêmica sobre desvalorização está disponível na Revista Balbúrdia da USP.