O dilema da cátedra digital: IA generativa redesenha o futuro do ensino superior
FOTOS Anderson Prado FinancIes Divulgação NotíciasEnsinoSuperior
A Inteligência Artificial (IA) não é mais uma promessa futurista, mas uma “tecnologia de uso geral” que, à semelhança da eletricidade, está remodelando a economia global e o cerne das Instituições de Ensino Superior (IES). Em sua recente apresentação para o fórum FinancIES, em novembro de 2025, o Professor doutor Luciano Sathler, PhD em Administração e CEO da CertifikEDU, traçou um diagnóstico contundente: as instituições, especialmente as pequenas e médias, precisam agir estrategicamente para não serem atropeladas pela onda tecnológica.
O risco da “Igualdade Artificial” e o mercado de trabalho
Um dos pontos mais alarmantes levantados por Sathler é o conceito de “Igualdade Artificial”. Com a popularização da IA generativa, atividades administrativas e gerenciais — o chamado “colarinho branco” — ganham eficiência, mas enfrentam o risco da padronização e da substituição. No Brasil, a previsão para o período de 2026 a 2030 indica que o risco maior recai sobre atividades repetitivas de escritório com rendas entre R$ 2 mil e R$ 8 mil mensais.
Para as faculdades, o alerta é direto: cursos de alta procura como Direito, Administração e Pedagogia são os mais ameaçados de terem suas atividades profissionais substituídas ou profundamente alteradas pela IA. “O Brasil está novamente a reboque nessa onda”, afirma Sathler, destacando que o domínio tecnológico e educacional movido por IA será o diferencial dos próximos impérios mundiais.

Impactos estratégicos e demográficos
O cenário torna-se ainda mais desafiador quando cruzado com dados demográficos. Projeções do IBGE mostram uma queda acentuada na população de 18 anos — de 3,5 milhões em 2000 para cerca de 2,9 milhões em 2025 —, enquanto a população de 40 anos segue em crescimento. Isso exige que as IES repensem seu posicionamento.
Sathler sugere que as instituições evitem o “posicionamento anódino” (ticket médio e qualidade aceitável) e busquem a diferenciação, seja pelo foco na experiência regional ou por nichos específicos. Ele recomenda que, antes de elevar custos com novas tecnologias, as IES mapeiem processos atuais e verifiquem o que já está disponível em contratos vigentes sem custo adicional.
O Imperativo da humanização na aprendizagem
Na sala de aula, a IA generativa é comparada a uma “nova máquina de escrever”. O grande risco, segundo o especialista, é nos tornarmos “subcognitivos”, perdendo a capacidade básica de fluência cognitiva e formação de julgamentos próprios. O plano de ação para os docentes deve envolver três pilares essenciais:
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Alfabetização em IA: Conscientização e ética para proteção de dados.
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Uso Pedagógico: Aprender a usar ferramentas que cooperem com o trabalho.
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Letramento e Co-autoria: Mudar as práticas de ensino-aprendizagem e as relações com estudantes.
Em última análise, a transformação digital nas IES não deve ser apenas sobre software, mas sobre a “soberania digital” e o desenvolvimento regional. O desafio para os gestores é garantir que a Inteligência Artificial cuide da eficiência, enquanto a educação preserva e potencializa o que nos torna humanos: a capacidade de pensar de forma complexa e crític