Diploma de curso superior dobra salário no Brasil, mas evasão chega a 25%
FOTO Rovena Rosa/Agência Brasil Divulgação
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Ter um diploma de ensino superior no Brasil faz diferença — e muita. Segundo o relatório Education at a Glance (EaG) 2025, divulgado nesta terça-feira (9) pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), brasileiros com formação universitária ganham, em média, 148% a mais do que aqueles com apenas o ensino médio.
Mesmo assim, o país enfrenta altas taxas de evasão: um em cada quatro estudantes abandona o curso após o primeiro ano.
Ensino superior aumenta renda, mas ainda é para poucos
De acordo com o estudo, a diferença salarial no Brasil é a segunda maior entre os países analisados, atrás apenas da África do Sul (251%) e próxima da Colômbia (150%).
Apesar da vantagem, o acesso ao ensino superior ainda é restrito. Dados do IBGE apontam que apenas 20,5% dos brasileiros com 25 anos ou mais concluíram a graduação.
“O ensino superior ainda é um diferencial no mercado de trabalho, mas o desafio é ampliar o acesso e garantir a permanência dos estudantes”, destaca a coordenadora de Estatística Internacional Comparada do Inep, Christyne Carvalho.
Quase 25% dos jovens estão fora da escola e do trabalho
Outro dado que preocupa é o alto número de jovens entre 18 e 24 anos que não estudam nem trabalham — os chamados NEETs (Not in Education, Employment or Training). No Brasil, a taxa chega a 24%, bem acima da média da OCDE, de 14%.
Entre as mulheres, o índice é ainda maior: 29%, contra 19% entre os homens. Nos demais países da OCDE, as diferenças de gênero são pequenas ou inexistentes.
Evasão universitária é o maior desafio
O relatório revela que 25% dos alunos brasileiros abandonam o curso já no primeiro ano — quase o dobro da média internacional (13%).
Mesmo após três anos do prazo previsto para conclusão, menos da metade (49%) consegue se formar.
Nos países da OCDE, a taxa média de conclusão é 70%.
“A evasão precoce pode refletir o descompasso entre expectativas dos alunos e a realidade dos cursos, além da falta de orientação profissional e apoio aos ingressantes”, diz o texto do relatório.
No Brasil, apenas 24% dos jovens de 25 a 34 anos concluíram o ensino superior — pouco menos da metade da média da OCDE (49%).
As mulheres têm desempenho ligeiramente superior: 53% concluem o curso, contra 43% dos homens.
Mobilidade internacional e qualidade do ensino
O relatório também aponta que a mobilidade estudantil internacional segue estável no Brasil: apenas 0,2% dos universitários estudam fora do país — o mesmo índice de anos anteriores.
Na média da OCDE, 7,4% dos alunos são estrangeiros, o que mostra uma forte tendência global de internacionalização do ensino.
Outro alerta diz respeito à qualidade da formação acadêmica. Segundo a Pesquisa de Competências de Adultos 2023, 13% dos diplomados em países da OCDE — inclusive no Brasil — não atingem o nível básico de proficiência em leitura, sendo capazes apenas de compreender textos curtos sobre temas familiares.
Investimentos e contestação do Inep
O relatório estima que o governo brasileiro investe US$ 3.765 por aluno de ensino superior — cerca de R$ 20 mil por ano —, valor bem abaixo da média da OCDE (US$ 15.102, ou cerca de R$ 80 mil).
Entretanto, o Inep contesta esse dado e afirma que houve erro metodológico.
Segundo o órgão, o gasto público correto seria de US$ 15.619 por aluno (cerca de R$ 83 mil), superando a média da OCDE.
O equívoco, explica o Inep, ocorre porque a OCDE dividiu os investimentos públicos pelo total de estudantes — incluindo os matriculados na rede privada, que representam cerca de 80% das matrículas no país.
“O correto é considerar apenas os alunos de instituições públicas, que de fato recebem investimento direto do governo”, esclareceu o Inep em nota.
Mesmo com diferenças metodológicas, o investimento brasileiro no ensino superior equivale a 0,9% do PIB, percentual semelhante ao da média da OCDE.
Caminhos apontados pela OCDE
Para enfrentar o cenário, a OCDE recomenda medidas que melhorem a permanência e a qualidade no ensino superior.
Entre as ações sugeridas estão:
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Fortalecer a orientação vocacional no ensino médio;
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Oferecer programas mais curtos e flexíveis;
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Criar cursos adaptados a perfis diversos de alunos;
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Ampliar apoio pedagógico e psicológico aos ingressantes.
“Baixas taxas de conclusão limitam o retorno do investimento público e agravam a escassez de profissionais qualificados”, afirmou o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann.